Por Wanglézio Braga
Mudanças climáticas já impactam diretamente a produção agrícola na região Norte e provocam efeitos inesperados nas cadeias produtivas sustentáveis. Em entrevista ao Portal Acre Mais, a bióloga e técnica do Projeto RECA, Natália Maisforte, relatou que eventos atípicos têm alterado completamente o comportamento das safras, como ocorreu recentemente com o cupuaçu.
Segundo ela, o ciclo produtivo, que normalmente se estende de outubro a junho, sofreu atraso devido a uma seca prolongada e ao início tardio das chuvas. “A gente só começou a produção da safra em fevereiro de 2025. Quando o cupuaçu começou a cair, ele caiu tudo de uma vez, em um único mês”, explicou. O resultado foi uma supersafra concentrada, que sobrecarregou toda a estrutura da cooperativa, considerada referência em sustentabilidade na região Norte.

Com o volume elevado de frutos em curto período, a capacidade de processamento foi insuficiente. Houve superlotação nos espaços de recepção, nas barcaças de secagem e nas câmaras frias, o que acabou gerando perdas significativas. Parte da produção fermentou antes de ser beneficiada. Ainda assim, o ano foi marcado por recorde histórico, com mais de 2 milhões de frutos brutos de cupuaçu colhidos.
Diante desse cenário, o RECA tem buscado alternativas para reduzir os impactos das mudanças climáticas. Natália destaca que a entidade vem orientando produtores a adotar práticas mais sustentáveis, como sistemas de irrigação. Um projeto piloto já foi implantado em sete propriedades para avaliar os resultados dessas intervenções na produtividade.
Além disso, há planos para ampliar a infraestrutura de armazenamento e processamento, especialmente câmaras frias e áreas de recepção. A técnica também ressaltou o avanço na recuperação de áreas degradadas e na adoção de sistemas integrados, que conciliam agricultura e pecuária. “Os produtores estão mais conscientes e abertos a práticas que garantam equilíbrio entre produção e preservação”, afirmou.

RECA – UMA DAS MAIORES DO NORTE
A Associação e Cooperativa RECA reforçam o potencial de desenvolvimento sustentável. Criado na divisa entre Rondônia, Acre e Amazonas, o projeto é referência nacional em sistemas agroflorestais, integrando produção agrícola, preservação ambiental e geração de renda para famílias rurais. Com foco em culturas como cupuaçu, castanha e outras espécies nativas, o RECA alia tecnologia, organização comunitária e práticas sustentáveis, sendo frequentemente citado como modelo de economia verde e inclusão produtiva na Amazônia.
