Por Wanglézio Braga
No Dia Nacional do Técnico Agrícola, celebrado hoje (05), o Portal Acre Mais apresenta a trajetória de Clebson Lucas de Souza, professor do Instituto Federal do Acre (Ifac). A trajetória dele começou longe do Acre, entre as referências da agricultura familiar de sua infância em Colônia Leopoldina (AL). Neto de produtores rurais, ele decidiu ainda jovem seguir uma carreira ligada ao campo. Em 2005, aos 16 anos, ingressou na antiga Escola Agrotécnica Federal de Barreiros, em Pernambuco, onde passou três anos como aluno interno no curso técnico agrícola em Zootecnia. A formação abriu caminho para uma experiência na Embrapa Gado de Leite, em Coronel Pacheco (MG) onde participou de um programa de residência zootécnica e aprofundou os conhecimentos na produção leiteira.

Em 2009, foi contratado por uma cooperativa de produtores rurais mineiros para trabalhar como extensionista. A rotina incluía visitas a propriedades, acompanhamento de rebanhos e orientação sobre nutrição animal, criação de bezerras, manejo e qualidade do leite. O trabalho aproximou Clebson dos desafios enfrentados pelos produtores e deu a ele uma experiência que, anos depois, seria levada para dentro da sala de aula. A mudança para o Acre ocorreu em 2012. Já no estado, participou de cursos do Pronatec ofertados IFAC, ministrando aulas em áreas como agricultura e bovinocultura. Foi nesse contato com os estudantes que descobriu uma nova vocação: ensinar.
A aprovação em concurso público para docente da área de Agronegócio abriu caminho para o ingresso no Ifac, em 2019. Desde então, Clebson atua no campus Sena Madureira, onde trabalha com ensino, pesquisa e extensão. Tecnólogo em Agronegócio, especialista em Gestão Ambiental e mestre em Ciência Animal pela Universidade Federal do Acre (Ufac), ele ministra disciplinas relacionadas à administração rural, bovinocultura, cooperativismo e gestão ambiental. A experiência prática continua presente nas aulas, especialmente quando discute a relação entre produção agropecuária e sustentabilidade. Para ele, uma das maiores recompensas da docência é encontrar ex-alunos que seguiram na área, ingressaram em cursos como Agronomia e continuam construindo suas próprias trajetórias profissionais.
Ao avaliar os desafios da agricultura acreana, Clebson aponta problemas conhecidos por quem vive da produção: estradas em condições precárias, dificuldades de escoamento, sazonalidade das chuvas e falta de assistência técnica regular. Na avaliação do professor, ampliar a orientação aos produtores, melhorar a gestão das propriedades e recuperar áreas de pastagens degradadas são medidas importantes para fortalecer o setor.
Neste Dia Nacional do Técnico Agrícola, celebrado em 5 de novembro, sua história reúne duas faces de uma mesma profissão: o conhecimento adquirido no contato direto com o produtor e a responsabilidade de preparar quem dará continuidade ao trabalho no campo. “Sem o produtor rural nós não somos nada”, resume. E é justamente essa ligação com quem produz que Clebson procura manter viva, agora também por meio dos jovens que ajuda a formar em Sena Madureira.

CONFIRA A ENTREVISTA COMPLETA:
Portal Acre Mais – Como começou sua história na área agrícola?
Clebson Souza – Sou do município de Colônia Leopoldina, em Alagoas, e neto de produtores rurais. Desde criança, tinha interesse em estudar na área agrária. Em 2005, aos 16 anos, ingressei na antiga Escola Agrotécnica Federal de Barreiros, em Pernambuco, onde passei três anos como aluno interno. Fiz o ensino médio integrado ao curso técnico agrícola em Zootecnia, em período integral.
Portal Acre Mais – Depois da formação, qual foi sua primeira experiência profissional?
Clebson Souza – Em 2007, tive a oportunidade de participar de uma seleção para um estágio de residência zootécnica na Embrapa Gado de Leite, em Coronel Pacheco, Minas Gerais. Fiquei lá durante um ano, entre 2008 e o início de 2009, com foco na produção leiteira, uma área de que sempre gostei. Depois, fui selecionado para trabalhar em uma cooperativa de produtores rurais de Minas Gerais, onde comecei como extensionista rural.
Portal Acre Mais – Como era o trabalho de extensão rural?
Clebson Souza – Nossa meta era atender 40 produtores por mês. Trabalhávamos com nutrição animal, manejo, criação de bezerras, controle de carrapatos, qualidade do leite e também na área comercial. Primeiro fiquei em Pompéu, uma importante região leiteira de Minas Gerais, e depois fui transferido para a Grande Belo Horizonte. Aprendi muito com os produtores. Foi uma experiência importante para minha formação profissional.
Portal Acre Mais – Como aconteceu sua chegada ao Acre?

Clebson Souza – Vim morar no Acre em 2012. Na época, participei do Pronatec, que ofertava cursos por meio do Ifac. Ministrei algumas capacitações nas áreas de agricultura e bovinocultura e tive a oportunidade de conhecer diferentes regiões do estado, inclusive comunidades dos rios Caeté e Curuçá. Foi durante esses cursos que comecei a perceber que gostava de ensinar e de compartilhar conhecimento.
Portal Acre Mais – A decisão de deixar o trabalho direto no campo para se tornar professor foi planejada?
Clebson Souza – Não foi algo planejado. Aconteceu naturalmente. Quando comecei a ministrar os cursos, percebi que gostava daquele contato com os alunos e de trabalhar com as disciplinas. Depois, acompanhei os concursos para professores efetivos do Ifac e decidi participar da seleção para a área de Agronegócio. Fui aprovado no concurso de 2016 e ingressei na instituição em 2019.
Portal Acre Mais – Qual foi o maior desafio nessa mudança de carreira?
Clebson Souza – Foi a falta de experiência como educador. Eu tinha a vivência profissional, mas precisava aprender a lidar com a sala de aula, com os alunos e com os desafios da profissão docente. A gente vai estudando, aprendendo e aperfeiçoando o trabalho. Ser professor não é fácil, mas é muito gratificante, principalmente quando você ministra disciplinas de uma área na qual também se formou.
Portal Acre Mais – O senhor sente falta da rotina de visitas às propriedades e do contato direto com os produtores?
Clebson Souza – Sinto falta, sim. Hoje estou mais concentrado no ensino, na pesquisa e na extensão, mas o contato direto com o campo é muito bom. A gente aprende bastante com os produtores rurais. Essa experiência também é importante para levar exemplos reais aos alunos e mostrar como os conhecimentos técnicos podem ser aplicados nas propriedades.
Portal Acre Mais – Atualmente, quais atividades desenvolve no IFAC, em Sena Madureira?
Clebson Souza – Trabalho no curso de Agronegócio e também no curso técnico em Agropecuária integrado ao ensino médio. Ministro disciplinas relacionadas à administração rural, bovinocultura, cooperativismo e gestão ambiental. Procuro conciliar a importância da preservação ambiental com a produção agropecuária, trabalhando a ideia de uma produção cada vez mais sustentável. Também atuo nas áreas de ensino, pesquisa e extensão.

Portal Acre Mais – O que mais o motiva na formação de novos profissionais?
Clebson Souza – É muito gratificante ver jovens interessados em continuar na área. A gente sabe da importância do agronegócio para a produção de alimentos e para a economia. Temos vários ex-alunos de Sena Madureira que hoje estão cursando Agronomia e outras graduações das Ciências Agrárias. Quando encontramos esses alunos e vemos que estão crescendo profissionalmente e como pessoas, percebemos que fizemos parte de alguma maneira dessa trajetória. Isso não tem preço.
Portal Acre Mais – Na sua avaliação, quais são os principais obstáculos para o desenvolvimento da agricultura acreana?
Clebson Souza – Um dos principais problemas é a logística, principalmente o escoamento da produção. Temos estradas em condições ruins e que ficam acessíveis por um período limitado do ano. Isso acaba desmotivando e limitando a produção agrícola e pecuária. A sazonalidade das chuvas também dificulta o acesso às propriedades. Outro ponto importante é a falta de assistência técnica. O produtor precisa de acompanhamento mais efetivo para melhorar sua produção e sua gestão.
Portal Acre Mais – Como os técnicos agrícolas podem ajudar a mudar essa realidade?
Clebson Souza – Com orientação técnica, capacitação e consultoria. Existe uma carência muito grande na gestão rural e financeira das propriedades. O técnico pode ajudar o produtor a organizar melhor sua atividade, tomar decisões e buscar alternativas. Também pode contribuir levando as demandas do campo aos fóruns públicos e ajudando a construir políticas mais consistentes. Precisamos fortalecer as cadeias produtivas, incentivar práticas sustentáveis e trabalhar na recuperação de áreas degradadas, como as pastagens.
Portal Acre Mais – Apesar das dificuldades, como o senhor enxerga o futuro do agronegócio no Acre?
Clebson Souza – O Acre tem um potencial muito grande de crescimento. Existem desafios, mas também há um campo amplo de atuação para os profissionais das Ciências Agrárias. Precisamos investir em assistência técnica, capacitação e estrutura para que os produtores consigam desenvolver suas atividades. Acredito muito no potencial do estado.

Portal Acre Mais – Que mensagem deixa aos técnicos agrícolas e aos estudantes neste 5 de novembro?
Clebson Souza – Quero parabenizar os profissionais pela dedicação, pelo respeito e pela ética no trabalho com o produtor rural. Sem o produtor rural nós não somos nada. Desejo sucesso a todos e digo aos estudantes que não desistam dos seus sonhos. Para quem gosta da área e quer crescer profissionalmente, existe um campo muito grande de atuação. Estou à disposição para contribuir e ajudar a fortalecer a produção agropecuária no Acre, no Brasil e no mundo.
