Médico acompanha 240 casos da “Doença da Paca” no Acre e faz alerta sobre alimentação crua de cães

Por Wanglézio Braga

O médico e professor do curso de Medicina da Universidade Federal do Acre (Ufac), Nilton Siqueira, acompanha presencialmente cerca de 240 casos de hidatidose no estado, doença conhecida popularmente como “doença da paca”. Apesar do número de pacientes atendidos pelo especialista, ainda não há uma estatística consolidada que mostre a quantidade total de casos no Acre. A doença é causada pelo parasita Echinococcus vogeli, encontrado na região amazônica, e pode provocar a formação de cistos em diferentes órgãos do corpo humano. Durante palestra na I Conferência Internacional Amazônia Nexus, ocorrida na quarta-feira (21), o médico apresentou dados e fez alerta sobre risco de doença transmitida por cães que comem vísceras cruas.

Vísceras cruas de animais silvestres podem transmitir parasita Foto: Internet

Em entrevista ao Portal Acre Mais, o médico explicou que o principal risco não está no consumo da carne da paca, mas em oferecer as vísceras cruas do animal aos cães domésticos. Quando o cachorro ingere órgãos contaminados, o parasita pode desenvolver sua forma adulta no intestino do animal, que elimina ovos pelas fezes. A contaminação humana ocorre pela ingestão acidental desses ovos presentes no ambiente, e não diretamente pelo consumo da carne da paca. Por isso, o especialista ressalta que comunidades rurais, ribeirinhas e extrativistas não precisam abandonar o consumo da caça, mas devem adotar cuidados para interromper o ciclo de transmissão.

A doença pode atingir diferentes partes do organismo, principalmente o fígado e, em seguida, os pulmões. Segundo Nilton Ghiotti, a evolução costuma ser lenta e silenciosa: a infecção pode ocorrer ainda na infância, mas os sintomas aparecerem apenas na vida adulta. Dores abdominais pouco específicas e o surgimento de uma massa ou caroço na região do abdômen estão entre os sinais que podem levar o paciente a procurar atendimento médico. Em 2013, o pesquisador publicou um estudo com 60 pacientes; atualmente, acompanha cerca de 240 casos, sem incluir necessariamente os pacientes atendidos por outros profissionais no estado.

Para prevenir a doença, a principal orientação é não fornecer vísceras cruas de animais silvestres aos cães. Se forem aproveitadas na alimentação dos animais, elas devem ser bem cozidas antes de serem oferecidas. O professor também recomenda manter a vermifugação dos cães em dia, com orientação veterinária. O cuidado com a alimentação dos animais domésticos é uma medida simples que pode ajudar a interromper a transmissão e proteger famílias que vivem tanto no campo quanto nas cidades.

CONFIRA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA:

Portal Acre Mais — Professor, o que é a chamada doença da paca?

Nilton Ghiotti de Siqueira — A doença da paca é um nome popular para a hidatidose. Na região amazônica, ela está relacionada a um parasita chamado Echinococcus vogeli. Cientificamente, a doença é conhecida como equinococose neotropical. O apelido surgiu porque a população associou a enfermidade à paca e ao ciclo de transmissão envolvendo os cães.

Portal Acre Mais — Como ocorre a transmissão da doença?

Nilton Ghiotti — O ciclo envolve os animais silvestres, os cães e o ambiente. Quando o cão doméstico come vísceras cruas de uma paca contaminada, o parasita pode desenvolver sua forma adulta no intestino do animal. Depois, o cão elimina ovos pelas fezes, que contaminam o ambiente. O ser humano pode ingerir esses ovos acidentalmente e desenvolver a doença.

Portal Acre Mais — Então, quem consome carne de paca corre o risco de contrair a doença?

Nilton Ghiotti — Não é o consumo da carne da paca que transmite a doença ao ser humano. As comunidades que vivem em áreas isoladas e dependem da caça como fonte de proteína não precisam abandonar esse hábito por causa dessa enfermidade. O principal cuidado é não oferecer as vísceras cruas aos cães domésticos. É preciso interromper esse ciclo de transmissão.

Nilton Siqueira durante palestra na Conferência Amazônia Nexus / Foto: Wanglézio Braga

Portal Acre Mais — Quais órgãos do corpo humano podem ser atingidos?

Nilton Ghiotti — O fígado é o órgão mais frequentemente acometido, mas a doença também pode atingir os pulmões e outras partes do organismo. A cavidade abdominal pode ser afetada, e, teoricamente, qualquer órgão pode apresentar comprometimento. A gravidade depende do local atingido e da evolução da doença.

Portal Acre Mais — O Acre já registrou muitos casos?

Nilton Ghiotti — Em 2013, publicamos um estudo com uma série de 60 pacientes. Atualmente, acompanho presencialmente cerca de 240 casos de hidatidose. Esse número não representa necessariamente o total de pessoas com a doença no Acre, porque outros profissionais também podem atender pacientes. Ainda não temos uma estatística global consolidada dos casos no estado.

Portal Acre Mais — É possível identificar em quais municípios há mais casos?

Nilton Ghiotti — Os pacientes que acompanho nasceram, em sua maioria, em seringais e áreas rurais. Provavelmente, a contaminação ocorreu nesses locais, ainda na infância. Como a doença demora para se manifestar, muitos pacientes só recebem o diagnóstico quando já estão adultos e morando em áreas urbanas. Portanto, o local onde a pessoa vive hoje não significa, necessariamente, que foi onde ocorreu a contaminação.

Doença da paca pode levar anos para apresentar sintomas / Foto: Internet

Portal Acre Mais — Por que a doença demora tanto para apresentar sintomas?

Nilton Ghiotti — É uma doença bastante silenciosa. O fígado tem uma grande reserva funcional, então pode demorar até que uma alteração provoque sinais perceptíveis. Além disso, os cistos crescem lentamente. A pessoa pode se contaminar na infância e só apresentar manifestações na vida adulta. São raros os casos em que crianças já apresentam sintomas e recebem o diagnóstico nessa fase.

Portal Acre Mais — Quais sinais devem servir de alerta para procurar atendimento médico?

Nilton Ghiotti — Os sintomas iniciais costumam ser vagos, como dores abdominais. Em casos mais avançados, o paciente pode perceber um caroço ou uma massa palpável no abdômen, na região do fígado ou em outra parte da cavidade abdominal. Esses sinais precisam ser investigados por um profissional de saúde, porque o diagnóstico depende de avaliação médica e de exames.

Portal Acre Mais — Qual é a principal orientação para produtores rurais, ribeirinhos e seringueiros?

Nilton Ghiotti — Precisamos fechar o ciclo de transmissão. É extremamente importante não oferecer vísceras cruas de animais silvestres aos cães domésticos. Se a pessoa quiser aproveitar essas vísceras para alimentar o animal, deve cozinhá-las bem antes. Outra medida é manter os cães desparasitados, com orientação veterinária. São cuidados fundamentais para reduzir o risco de transmissão.

Portal Acre Mais — Então, o cuidado com os cães é decisivo para prevenir a doença?

Nilton Ghiotti — Sim. A prevenção passa por impedir que o cão se infecte ao comer vísceras cruas e por controlar os parasitas dos animais domésticos. Ao evitar que o ciclo continue no ambiente, protegemos também as pessoas que vivem nas comunidades rurais e nas cidades.

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