Pequenos insetos, grandes prejuízos: primeiro registro de tripes-praga da soja é identificado no Acre

Por Rodrigo Souza Santos *

Os tripes estão entre os insetos que vêm ganhando importância nas lavouras de soja brasileiras nas últimas décadas. Pequenos e muitas vezes difíceis de observar a olho nu, esses insetos podem causar danos significativos às plantas, reduzindo o desenvolvimento da cultura e, em alguns casos, transmitindo viroses de importância agrícola.

A dissertação intitulada “Prospecção de pragas e inimigos naturais em cultivo de soja e remanescente florestal adjacente”, correspondente a um estudo realizado pela Embrapa Acre e pela aluna de pós-graduação da Universidade Federal do Acre, Maria Érica Costa de Lima, registrou, pela primeira vez, a ocorrência da espécie Caliothrips phaseoli, conhecida popularmente como “tripes-da-soja” ou “tripes-do-feijoeiro”, associada ao cultivo de soja no estado do Acre. O registro foi realizado em uma área agrícola de Rio Branco, durante a safra 2024/2025, em lavoura adjacente a um remanescente florestal amazônico.

A descoberta amplia o conhecimento sobre a distribuição dessa espécie no Brasil e reforça a necessidade de monitoramento fitossanitário em áreas recentemente incorporadas à produção de soja na Amazônia Ocidental. 

Os tripes pertencem à ordem Thysanoptera e incluem espécies com diferentes hábitos alimentares. Algumas vivem associadas a fungos e matéria orgânica em decomposição, enquanto outras são fitófagas, alimentando-se diretamente dos tecidos vegetais.

Na agricultura, determinadas espécies se destacam pelo potencial de causar danos econômicos. Em lavouras de soja, os tripes raspam a superfície das folhas e sugam o conteúdo celular, provocando manchas prateadas, necroses e redução da área fotossintética da planta.

Em infestações elevadas, os prejuízos podem ser expressivos. Embora sejam insetos muito pequenos, os tripes podem causar danos significativos à cultura da soja. Estudos realizados na América do Sul demonstraram que infestações severas do tripes-da-soja (Caliothrips phaseoli) podem reduzir a fotossíntese das plantas e provocar perdas de produtividade de até 17%, dependendo da intensidade da infestação e das condições de cultivo.

Caliothrips phaseoli, “tripes-da-soja” ou “tripes-do-feijoeiro”

Embora o registro em soja seja inédito para o Acre, essa espécie já havia sido relatada em outras regiões produtoras do Brasil, especialmente nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste, além dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

A espécie é considerada polífaga, ou seja, capaz de se desenvolver em diferentes plantas hospedeiras. Além da soja, já havia sido encontrada em amendoim-forrageiro, hortelã e girassol no Acre, bem como em outras espécies cultivadas pertencentes a diversas famílias botânicas, no Brasil. A identificação em lavouras de soja demonstra a adaptação da espécie ao novo cenário agrícola do estado.

Além dos danos diretos causados pela alimentação, algumas espécies de tripes possuem importância ainda maior por atuarem como vetores de vírus de plantas. Entre essas espécies, destaca-se Frankliniella schultzei, frequentemente associada à cultura da soja em outras regiões do Brasil e conhecida por transmitir orthotospovírus, como o Groundnut Ringspot Virus (GRSV). Esses vírus podem provocar sintomas foliares, redução do crescimento e perdas de produtividade. Embora essa espécie não tenha sido detectada no levantamento realizado no Acre, ressalta-se que o monitoramento contínuo é fundamental, especialmente diante da expansão da cultura da soja na região amazônica.

Nos últimos anos, a soja passou a ocupar papel crescente na agricultura acreana, tornando-se um dos principais produtos agrícolas de exportação do estado.

Com a expansão da cultura, aumenta também a necessidade de estudos sobre insetos-praga, inimigos naturais e potenciais vetores de doenças vegetais presentes na região. O primeiro registro de Caliothrips phaseoli em soja no Acre representa um passo importante nesse processo e contribui para ampliar o conhecimento sobre os insetos associados à cultura na Amazônia brasileira.

* Rodrigo Souza Santos é Biólogo, doutor em Agronomia (Entomologia Agrícola), pesquisador da Embrapa Acre.

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