Existe uma parte dos grandes rodeios realizados no Acre que quase nunca aparece nos palcos, nos vídeos oficiais ou nas fotografias de prefeitos. Para alguns profissionais, a festa termina, mas a espera começa pelo pagamento. Peões, salva-vidas, locutores, juízes e outros trabalhadores do rodeio colocam o corpo e a própria vida em risco dentro da arena e, em alguns casos, precisam esperar dias — ou até meses— para receber aquilo que foi combinado. Não se trata de favor, muito menos de prêmio simbólico: trata-se de trabalho. E trabalho precisa ser respeitado e pago. O caso recente relatado por profissionais que participaram do rodeio da ExpoXapuri 2026 expõe essa máxima em muitas festas organizadas por algumas prefeituras.
O problema é que o rodeio parece estar sendo tratado, em algumas festas, como uma atração de segunda categoria, apesar de ser justamente um dos grandes carros-chefes das feiras agropecuárias. Enquanto shows nacionais recebem cachês elevados e, conforme os contratos, contam com pagamentos antecipados ou condições financeiras rigorosamente estabelecidas, profissionais da arena acabam ficando na ponta mais frágil da negociação. E há uma diferença que não pode ser ignorada: o cantor sobe ao palco para trabalhar; o peão entra na arena sabendo que uma queda pode representar uma lesão grave. O salva-vidas está ali justamente porque existe perigo. O locutor trabalha no meio da pressão de uma competição que envolve animais, competidores e público. São profissionais que não podem ser lembrados somente quando é hora de anunciar a programação e vender ingressos — ou, no caso das festas gratuitas, justificar o investimento público.
É preciso também olhar para uma realidade que costuma ser convenientemente esquecida pelas administrações municipais: muitos desses profissionais não são moradores do município onde o evento acontece. Eles viajam centenas de quilômetros, deixam suas famílias, gastam com deslocamento, alimentação, hospedagem, equipamentos e manutenção de suas atividades. Quando a prefeitura ou a organização atrasa um pagamento, não está simplesmente “atrasando uma transferência”; está transferindo o custo da festa para quem já arcou com o risco e com as despesas para fazê-la acontecer. E é justamente nesse ponto que o Acre precisa se olhar no espelho. Não é aceitável que o profissional precise primeiro correr risco dentro da arena para somente depois começar uma peregrinação atrás do próprio dinheiro.
O Portal Acre Mais entende que a discussão não é contra as festas agropecuárias, contra as prefeituras ou contra os investimentos em entretenimento. Pelo contrário: é justamente porque o rodeio tem importância econômica, cultural e turística que ele precisa ser tratado com profissionalismo. Não existe festa grande com organização pequena. O Acre não pode querer sediar grandes rodeios, anunciar competições nacionais, contratar profissionais de alto nível e, depois, naturalizar o atraso dos pagamentos como se fosse parte do espetáculo. Não é.
