Por Wanglézio Braga*
A passagem de Pedro Henrique Biondo Matias, o Berranteiro das Américas, pelo Acre, em seu regresso ao Brasil, virou algo que escapa da lógica fria da notícia. Não é só um homem montado, não é só uma travessia. É sentimento em movimento. Ele entrou por Assis Brasil, na tríplice fronteira, seguiu por Brasileia e, a cada quilômetro, foi costurando algo raro: um Acre que se reconhece no outro. Há muito tempo não se via, por aqui, um gesto coletivo tão espontâneo, tão humano, tão verdadeiro e social.
Por onde passa, Pedro não atravessa sozinho. Pessoas param a rotina, interrompem o trabalho, chamam os filhos, pedem fotos, oferecem água, comida, dinheiro, pouso para descanso, presentes simples e gestos gigantes. O Acre reaprendeu a acolher olhando nos olhos. Um vídeo publicado neste domingo (1° de fevereiro) mostra isso com delicadeza: uma serenata gospel, cantada como bênção, como cuidado, como quem diz “vá, mas vá protegido”. Quem acompanha a jornada se emociona porque não é sobre o berrante — é sobre o que ele desperta.

No Alto Acre, a rotina mudou. Assis Brasil sentiu primeiro, Brasileia vive isso agora, Epitaciolândia já se prepara. Crianças e jovens sonham alto. Sonham em sair pelo mundo no lombo de um cavalo, contando histórias, levando identidade. Pedro passa deixando rastros de imaginação, algo que anda em falta em tempos duros. Ele mostra que sonhar ainda é permitido, mesmo quando a vida insiste em apertar.
Essa travessia, embora pessoal, virou social. Uniu pessoas que normalmente não caminham juntas. Produtores, moradores urbanos, fiéis, curiosos, famílias inteiras. O Acre se juntou em torno de um sonho porque também precisa sonhar. Até Rio Branco, a agenda já se desenha cheia. Uma fazenda que cede os animais em solo acreano prepara uma grande festa para ele, para quem faz a vida sertaneja, para nós. Em um estado acostumado a ver desunião nas pautas locais, essa convergência soa quase como um respiro coletivo.

Em meio a alagações, embates políticos e um cansaço que se espalha, o galope do berranteiro funciona como pausa e espelho. É assim que o Acre precisa ser visto: por quem passa, por quem vive aqui e por quem ainda quer viver. Um lugar onde a generosidade não é discurso, é prática. Pedro Henrique, com sua travessia por nove países, com milhões ouvindo o som do berrante até em Wall Street, nos lembra que identidade não se exporta em caixa — se vive. E, nesses dias, o Acre escolheu viver o melhor de si.
Por fim, fica o voto sincero de sorte ao Pedro Henrique. Que o caminho siga leve, que Ada e Oklahoma (suas mulas) logo reencontrem a trilha, e que o berrante continue abrindo estradas, tocando corações e fazendo história na jornada.
* Wanglézio Braga é jornalista, editor-chefe do Portal Acre Mais.
