Por Wanglézio Braga
Em meio à floresta que molda a economia e a cultura do Acre, um novo arranjo produtivo começa a ganhar forma a partir das abelhas. O chamado Projeto Enxame, liderado pela Secretaria de Estado de Agricultura (Seagri), aposta na estruturação de viveiros voltados ao pasto apícola e meliponicular como estratégia para diversificar renda e fortalecer a cadeia do mel. A iniciativa, que une técnica, biodiversidade e mercado, sinaliza uma mudança de lógica na chamada “Rota do Mel” no estado.
A primeira experiência prática foi implantada em Rio Branco, durante uma oficina realizada no último sábado (21), reunindo produtores da Associação dos Moradores e Produtores Rurais da Estrada do Amapá (AMPREA) e técnicos da Seagri. Conduzida pelo zootecnista Nélio Figueiredo, a capacitação apresentou desde técnicas de atração de abelhas sem ferrão até a identificação de espécies vegetais estratégicas para garantir oferta contínua de pólen e néctar. “A proposta é estruturar a base da produção, começando pela alimentação das abelhas”, explica o engenheiro florestal Vicente Simões.

O viveiro instalado na capital é o primeiro de uma rede planejada para o estado. Com capacidade para cerca de 3.500 mudas em uma área de 72 metros quadrados, o espaço segue o conceito de sistemas agroflorestais, combinando espécies nativas e exóticas para simular uma floresta funcional. A meta é garantir floradas ao longo de todo o ano, reduzindo a sazonalidade da produção de mel e aumentando a produtividade dos apiários.
O projeto também se ancora na riqueza da biodiversidade local. No Acre, já foram catalogadas ao menos 20 espécies de abelhas sem ferrão, incluindo uruçu, jataí, mandaguari e iraí — todas com potencial econômico e ambiental. A valorização dessas espécies reforça um modelo produtivo sustentável, com baixo impacto ambiental e alto valor agregado, alinhado às demandas de mercados mais exigentes.

A expansão já está no radar da Seagri. Municípios como Bujari, Senador Guiomard e Xapuri devem receber novos viveiros, além de uma unidade prevista para a região do Juruá. Cada estrutura terá capacidade semelhante, podendo somar até 18 mil mudas por ano. A expectativa é beneficiar mais de 300 produtores, ampliando a escala da cadeia do mel no estado.
Além da produção, o projeto mira a integração com o turismo rural, agregando valor à atividade e criando novas experiências para visitantes. “A Rota do Mel surge, assim, como um eixo estratégico da SEAGRI que conecta produção, conservação e geração de renda, posicionando o Acre como potencial na meliponicultura amazônica”, concluiu Vicente.
