Por Wanglézio Braga*
O episódio envolvendo a Casa do Produtor, em Sena Madureira, conseguiu o que poucos conseguem: ficou feio para todos os lados [Leia-se Prefeitura, Governo do Acre e Congresso Nacional]. A cena de políticos transformando uma obra pública ainda em execução em palco político é o retrato mais claro de como a vaidade e a disputa por protagonismo continuam se sobrepondo ao interesse coletivo. Mais uma vez, a ‘bandeira dos produtores rurais’ foi usada como pretexto para uma batalha de egos, sem qualquer ganho concreto para quem vive na e da zona rural.
O que se viu foi um espetáculo constrangedor. De um lado, visitas travestidas de “fiscalização” com forte cheiro de promoção política. Do outro, respostas duras, exonerações e recados públicos que soaram mais como revanche do que como medida administrativa. E ainda um lado que não aparece como mediador, mas sim como parte ativa da crise política, contribuindo para a escalada do embate. O saldo é negativo: uma crise fabricada, barulhenta, improdutiva e absolutamente inútil para o produtor rural, que segue enfrentando problemas reais, urgentes e ignorados, como estradas intrafegáveis, falta de acesso, crédito escasso, qualidade de vida utópica e ausência de políticas contínuas e sérias de incentivo.
Essa briga escancara uma realidade incômoda: o produtor quase nunca é prioridade. Em vez de união para cobrar mais investimentos, destravar gargalos logísticos e ampliar programas de apoio à agricultura familiar, opta-se pelo confronto público, pelas indiretas e pela disputa de narrativas. Enquanto políticos disputam quem aparece mais, famílias inteiras seguem sem conseguir escoar sua produção, especialmente nesta época do ano, quando o isolamento vira regra e não exceção.
Também salta aos olhos a omissão em pautas estruturantes que deveriam mobilizar a bancada acreana em Brasília. Falta debate sério sobre a política ambiental que tem travado o crescimento da agricultura e do agronegócio no estado. Falta, sobretudo, discussão profunda sobre a rastreabilidade bovina, uma bomba-relógio que ameaça paralisar a pecuária acreana caso avance sem adaptação à realidade local. O Congresso Nacional segue em silêncio, enquanto o campo paga a conta da inércia política.
No fim, a conclusão é dura, porém necessária: essa crise foi uma disputa pequena, mesquinha e improdutiva, que expôs vaidades, mas não resolveu nada. Ficou feio para todos os envolvidos. O produtor, mais uma vez, foi usado como figurante num teatro político que não alimenta, não gera renda e não constrói futuro. E enquanto esse jogo continuar, quem vive na zona rural seguirá esperando por ações — não por picuinha.
* Wanglézio Braga é jornalista, editor-chefe do Portal Acre Mais.
