Por Wanglézio Braga*
O anúncio antecipado de que o secretário de Agricultura, José Luís Tchê, deixará o comando da Seagri nos próximos dias para retornar ao parlamento abriu uma discussão inevitável — e necessária — sobre o futuro da política agrícola do Acre. Não se trata apenas de uma troca de nomes, mas de uma decisão estratégica que pode preservar ou comprometer avanços históricos na agricultura acreana. Em um setor onde resultados levam anos para amadurecer, improviso custa caro.
A liderança de uma gestão que se encerra não pode ser tratada como algo comum. Os números da agropecuária acreana deram um salto concreto, mensurável e reconhecido por fontes oficiais como o IBGE, desmontando qualquer tentativa de reduzir os avanços a discurso político. Houve crescimento do Valor Bruto da Produção (VBP), expansão expressiva da cafeicultura, fortalecimento do cacau, da pecuária de baixo carbono e da agricultura familiar. Isso não nasce do acaso, mas de planejamento, execução e conhecimento profundo da máquina pública.
Por isso, a principal armadilha agora é apostar em alguém “de fora”, sem vivência no sistema, nos fluxos internos e nos preceitos da gestão atual. A agricultura acreana não pode perder tempo com curvas de aprendizado, desorganização administrativa ou reinvenção de planos que já estão em pleno funcionamento. Um novo gestor sem domínio da engrenagem pode atrasar convênios, travar programas, paralisar investimentos e comprometer a confiança do produtor rural.
É verdade que 2026 já anunciava mudanças políticas. Mas é justamente nesses momentos que se mede a maturidade de quem governa. O governador Gladson Cameli — e a vice-governadora Mailza Assis, que assumirá oficialmente o posto após a renúncia do governador — precisam entender que continuidade também é uma decisão política. A caneta que nomeia também carrega a responsabilidade de não desmontar o que está dando certo.
Os resultados da Seagri entre 2023 e 2025 mostram que a política agrícola deixou de ser apenas assistencialista para se tornar estruturante. Mais de 40 mil hectares mecanizados, salto histórico do café acreano, crescimento da pecuária sustentável e programas como PAA, PAA Indígena e Comprac fortalecendo renda no campo são marcas de uma gestão que entendeu o produtor como protagonista, não como figurante.
Romper esse ciclo positivo por vaidade política ou pressa seria um erro histórico. O Acre precisa de alguém que já esteja habituado ao sistema, que conheça os processos, os gargalos e as soluções em curso. É preciso gente do meio, de dentro. O campo não espera. A safra não espera. E o produtor, muito menos.
* Wanglézio Braga é jornalista, editor-chefe do Portal Acre Mais.
